
AVÉ, LIBERDADE!...
Amei tudo quanto vi
Em liberdade viver;
Tomei ódio á tirania
Jurei guerra ao seu poder.
Pois se nem o mar quer peias,
Pois se é livre o rijo vento,
E livre é o pensamento,
Há-de um homem q'rer cadeias?!...
Oh! não!... que o sangue das veias
Também é livre por si! ...
Liberdade! ...eu conheci
Quanto o teu poder encanta!...
Por ver que és tão boa e santa
Amei tudo quanto vi!...
O mundo inteiro gemia
Debaixo de um jugo bravo,
Tu surgiste, e o povo escravo
Livre olhou a luz do dia!...
Na treva mais que sombria
A maldade foi morrer
E os negros dentes ranger
Blasfémias mandando aos céus,
Por ver os filhos de Deus
Em liberdade viver!...
A tirania é horrível,
Só quer luto, fogo e sangue;
Ceva na vítima exangue
A sua fúria terrível!
Oh! nada há mais temível
Nos males que o inferno cria,
Nem há fera mais bravia
Do que essa hidra feroz!...
Por ela ser mãe do algoz
Tomei ódio à tirania!...
Quando o assassino Caim
Matou seu irmão Abel,
Plantou na terra a cruel
Tirania tão ruim;
E herdeira cruel, assim
Soube ela o crime exercer
'Té no mundo aparecer
A Divina Liberdade,
Que lhe disse: Oh! impiedade!
Jurei guerra ao teu poder...
ADELINO VEIGA:
«Falar de Adelino Veiga, o operário-poeta, é prestar homenagem a um conimbricense que com dignidade representou uma plêiade de homens que a história citadina regista e jamais poderá esquecer.
Adelino Veiga mais do que a sua personalidade histórica é também uma figura simbólica; a figura do operário conimbricense, virtuoso, trabalhador honrado e inteligente, com notáveis aptidões literárias e artísticas.
Adelino Veiga nasceu em plena baixa de Coimbra, a 13 de Outubro de 1848, numa modesta casa da rua das Solas, o n.º. 19 (agora com o seu nome, rua Adelino Veiga).
Oriundo de família humilde, Adelino Veiga, era filho de Maximiano Bento da Veiga, natural da freguesia de Castelo Viegas, e de Maria das Dores, natural de Santa Justa, freguesia de Coimbra...
Cedo aprendeu com o pai a arte de barbeiro, consertador de chapéus de chuva, latoeiro de amarelos, chapeleiro e construtor de redes de arame, ajudando deste modo a subsistência da família.
Mais tarde residindo somente com a mãe e irmã Rosália Veiga (teve outro irmão - Maximiano Veiga) instalará a sua própria oficina de reparação de chapéus na Rua Nova da Rainha, actual Rua da Sota, onde está instalada a Agência do Banco de Portugal.
Devido a dificuldades económicas, Adelino Veiga, não teve um grande percurso nos seus estudos. Não chegou a concluir a instrução primária, o que sempre lamentou, mas a vontade de saber, a capacidade de destrinçar no seu explorado meio a realidade dos seus desejos, a consciência dos direitos de quem trabalha, enfim uma profunda sensibilidade de sentir e amar, tornaram-no num autodidacta. Testemunhos há que o encontram desde a tenra idade dos 15 anos, a versejar com facilidade e espontaneidade no "Café da Alexandrina", ao cimo da Praça Velha, hoje Praça do Comércio.
O operário-poeta não descurou, porém, a sua formação intelectual nem esqueceu a verdade da sua origem e as dificuldades que enfrentou, relacionando o seu passado e a sua vivência difícil, com a vida de problemas com que os operários se defrontavam ...
Sobre Adelino Veiga, poeta humilde, escreveu o escritor Campos de Figueiredo "nunca vi o seu nome nos compêndios escolares nem qualquer referência na história da nossa literatura onde figuram versejadores cuja obra nada tem a ver com a poesia. E Adelino Veiga bem merecia tornar-se conhecido pela sua qualidade de poeta que na realidade foi. Embora poeta menor, a verdade é que este operário de Coimbra viveu como poeta e deixou uma obra onde a poesia existe. Nem grande nem pequena: apenas poesia".
Adelino Veiga afirmou a sua extraordinária personalidade em vários campos da actividade cultural, a saber: na poesia, na oratória, no jornalismo, no associativismo, no teatro e no combate por reivindicações sociais.
(Do Livro “VIDA E OBRA DE ADELINO VEIGA – POETA-OPERÁRIO CONIMBRICENSE, António Gonçalves, GAAC – Coimbra, 1993)
*
AS TOUPEIRAS DA SACRISTIA
Nas trevas andam toupeiras,
Pois não podem ver o dia;
Assim são os missionários
Toupeiras da sacristia.
Contra a deusa liberdade
Jesuítas formam guerra,
Derramando pela terra
A tirania, a maldade;
Com fumos de santidade
E com pregações matreiras,
Muitas famílias inteiras
São por eles iludidas;
É uma guerra ás escondidas,
Nas trevas andam toupeiras.
N o escuro confessionário
Falam das penas do inferno
Insultando o Padre Eterno
E o Mártir do Calvário!
Com beatério falsário,
Com velhaca hipocrisia,
Aconselham tirania.
Fazem do povo um açoite!...
Eles são negros como a noite,
Pois não podem ver o dia.
Rojam-se como as serpentes,
E tão enganosos são,
Que fingem lamber a mão
P'ra mais ferrarem os dentes!...
Com rezas impertinentes,
Estes negros comissários
Inventam milagres vários
Insultando alei de Cristo!...
É este o bando sinistro! ...
Assim são os missionários! ...
Abusam da caridade
Da maneira a mais cruel;
Amam Carlos e Miguel,
Que eles são forca e maldade.
Junto ao trono da verdade
São a vil hipocrisia,
Nenhuma luz alumia
O antro de tais consciências!...
São filhos das violências,
Toupeiras da sacristia.
OS PECADOS DO MUNDO
N'este mundo tudo é vario,
Tudo é pantomineiro;
Só vence a torpe mentira,
Só dá leis o Deus Dinheiro.
Vendem a honra as donzelas,
Os homens o pundonor ,
Põe-se em mercado o amor
Ao tinir das amarelas;
'Scondem-se podres mazelas
Em pomposo vestuário,
Os pobres tem por calvário
A fome, a dor, a miséria;
Viva o crime!... o mais é léria!...
N'este mundo tudo é vario!...
Mente ao povo o deputado
Quando prega economias,
Pois come todos os dias
Á franca mesa do estado.
O Zé Povinho é roubado
Até no pão pelo padeiro,
E compra água ao vendeiro
Julgando que compra vinho;
Tudo engana o Zé Povinho,
Tudo é pantomineiro.
Uns pregam pátria e rei,
Os outros fraternidade,
Mas quase sempre a maldade
A uns e outros dá lei;
Na França a descrença achei
Ao ver que de irmãos saíra
A comuna, o crime, a ira,
O incêndio, a mortandade! ...
Em nome da liberdade
Só vence a torpe mentira! ...
Como o ministro a fazenda
Usando de manha e trica,
E o pobre sem real fica
P'ra sustentar a tal prenda.
Dá-se a um parvo uma comenda,
Ou tit'lo de conselheiro,
Embora ele seja tendeiro,
Ou galego o mais boçal,
Pois n'este mundo venal
Só dá leis o Deus Dinheiro.