Tempos de Cólera

A propósito do debate do Estado da Nação, na Assembleia da República

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O ESTADO DA NAÇÃO:


Uns vão bem e outros mal


Fausto

Senhoras e meus senhores,


façam roda por favor


Senhoras e meus senhores,


façam roda por favor,


cada um com o seu par


Aqui não há desamores,


se é tudo trabalhador,


o baile vai começar.


 


Senhoras e meus senhores,


batam certos os pezinhos,


como bate este tambor


Não queremos cá opressores,


se estivermos bem juntinhos,


vai-se embora o mandador


 Vai-se embora o mandador


 


Faz lá como tu quiseres,


faz lá como tu quiseres,


faz lá como tu quiseres


Folha seca cai ao chão,


folha seca cai ao chão


 


Eu não quero o que tu queres,


eu não quero o que tu queres,


eu não quero o que tu queres,


Que eu sou doutra condição,


que eu sou doutra condição


 


De velhas casas vazias,


palácios abandonados,


os pobres fizeram lares


Mas agora todos os dias,


os polícias bem armados


desocupam os andares


Para que servem essas casas,


a não ser para o senhorio


viver da especulação


 


Quem governa faz tábua rasa,


mas lamenta com fastio


a crise da habitação


 


E assim se faz Portugal,


uns vão bem e outros mal.


 


Faz lá como tu quiseres,


faz lá como tu quiseres, 


faz lá como tu quiseres


Folha seca cai ao chão,


folha seca cai ao chão


 


Eu não quero o que tu queres,


eu não quero o que tu queres,


eu não quero o que tu queres,


Que eu sou doutra condição,


que eu sou doutra condição


 


Tanta gente sem trabalho,


não tem pão nem tem sardinha


e nem tem onde morar


Do frio faz agasalho,


que a gente está tão magrinha


da fome que anda a rapar


 


O governo dá solução,


manda os pobres emigrar,


e os emigrantes que regressaram


Mas com tanto desemprego,


os ricos podem voltar


porque nunca trabalharam


 


E assim se faz Portugal,


uns vão bem e outros mal.


 


Faz lá como tu quiseres,


faz lá como tu quiseres,


faz lá como tu quiseres


Folha seca cai ao chão,


folha seca cai ao chão


 


Eu não quero o que tu queres,


eu não quero o que tu queres,


eu não quero o que tu queres,


Que eu sou doutra condição,


que eu sou doutra condição.


 


E como pode outro alguém,


tendo interesses tão diferentes,


governar trabalhadores


Se aquele que vive bem,


vivendo dos seus serventes,


tem diferentes valores.


 


Não nos venham com cantigas,


não cantamos para esquecer,


nós cantamos para lembrar


Que só muda esta vida,


quando tiver o poder


o que vive a trabalhar


 


Segura bem o teu par,


que o baile vai terminar.


 


Faz lá como tu quiseres,


faz lá como tu quiseres, 


faz lá como tu quiseres


Folha seca cai ao chão,


folha seca cai ao chão.


 


Eu não quero o que tu queres,


eu não quero o que tu queres,


eu não quero o que tu queres,


Que eu sou doutra condição,


que eu sou doutra condição.


 


Uns vão bem e outros mal - pertence ao álbum Madrugada dos Trapeiros, que Fausto Bordalo Dias lançou em 1977


Imagem: TSF

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