
No dia 24 de Fevereiro de 1828, chegou a notícia do desembarque do regente D. Miguel, que pouco depois foi aclamado rei absoluto pelos representantes do povo português.
Logo em Coimbra se preparou uma deputação, com representantes do corpo catedrático e do cabido, para ir a Lisboa felicitar D. Miguel, constando ainda que os lentes seriam os drs. Mateus de Sousa Coutinho e Jerónimo Joaquim de Figueiredo, que levariam uma lista de estudantes suspeitos, a fim de os fazerem punir e riscar da Universidade. Estes professores eram considerados como os mais encarniçados inimigos da academia liberal, aqueles que se tinham manifestado contra o insurgente marquês de Chaves.
Neste tempo, os estudantes adversários do regime absolutista estavam agrupados no Clube Republicano Escolástico, cujas reuniões se efectuavam clandestinamente em vários esconderijos. O Clube dispunha-se a resistir aos propósitos do regente D. Miguel, já demonstrados nos actos iniciais do seu governo.
Numa assembleia realizada na Rua do Loureiro, tratou-se da ida e atitude dos lentes. Os duzentos estudantes que a compunham proclamaram, a uma voz, a sua morte, sendo imediatamente votados, por escrutínio secreto, os treze académicos que haviam de cumprir a sentença.
No dia 16, foram os eleitos intimados a comparecer, à noite, numa casa situada aos Palácios Confusos, para receberem o plano da emboscada e assentarem nas medidas de segurança a tomar na fuga; debandaram todos à uma hora da madrugada.
E em 17 de Março, à tarde, partia a deputação, composta pelo corpo catedrático – dr. Mateus de Sousa Coutinho, representante da Faculdade de Cânones, acompanhado dum seu sobrinho, dr. António José das Neves e Melo com seu filho, representante da Faculdade de Filosofia, e dr. Jerónimo Joaquim de Figueiredo, representante da Faculdade de Medicina, e pelos delegados da Sé Catedral: o deão António de Brito e o cónego Pedro Falcão da Costa e Meneses, que levavam em sua companhia dois sobrinhos.
Os estudantes tinham partido nesse dia, passando a noite na quinta da Barreira junto a Condeixa-a-Nova e de que era proprietário Manuel José de Freitas.
Na madrugada do dia 18, continuaram a sua jornada e, no sítio do Cartaxinho – local hoje conhecido pelos «Lentes», próximo do Sangardão e da Arrifana, lugares pertencentes à freguesia da Ega – aguardaram a chegada dos membros da deputação. Com efeito, das 7 para as 8 horas, apareceram estes, sendo surpreendidos pelos estudantes, que os obrigaram a parar, de clavinas apontadas ao peito dos condutores. Bento Adjuto abeirou-se dos cabeças, com a arma apontada e dedo no gatilho, e bradou: – «Saltem cá para fora!».
Todos se apearam e foram obrigados a seguir por uma charneca, à esquerda da estrada. Aos condutores foi ordenado que transportassem a bagagem para o mesmo local, sob ameaça de morte se gritassem por socorro. Os representantes e seus parentes foram então conduzidos para outro sítio, mais desviado, onde os obrigaram a deitar-se por terra.
Soou em seguida uma descarga de cinco arcabuzes, ficando mortos os drs. Mateus de Sousa Coutinho e Jerónimo Joaquim de Figueiredo e, gravemente feridos, o deão António de Brito e o cónego Pedro Falcão da Costa Menezes. José Cândido de Sá Pereira e Estêvão Falcão da Costa e Menezes, parentes das vítimas, receberam ferimentos leves.
Uma mulher da Venda Nova, que presenciara a cena dum ponto elevado, foi quem valeu aos feridos, gritando e bradando por socorro; e a circunstância de ser 3ª. feira, dia do mercado em Condeixa-a-Nova, fez acudir, prontamente, muito povo ao local do atentado. Mal foi também, para os comparticipantes do acto criminoso, a passagem pela estrada, na ocasião, a caminho de Coimbra, do general Agostinho Luís da Fonseca e seu filho, escoltados por alguns soldados de cavalaria, os quais viram de longe aquele ajuntamento de povo, acorreram ao local e o auxiliaram na captura dos criminosos.
Destes, em diferentes pontos, foram presos nove: Manuel Inácio Mansilha, Domingos Joaquim dos Reis, Francisco de Amor Ferreira da Rocha, Urbano de Figueiredo, Carlos Lidoro de Sousa Pinto Bandeira, Domingos Barata Delgado, António de Miranda e Matos e Bento Adjuto Soares Carneiro. Depois de estacionarem alguns dias nas cadeias de Condeixa-a-Nova e Rabaçal, foram enviados para Coimbra e dali conduzidos, em barcos, para a Figueira da Foz. Por mar seguiram para Lisboa, onde, em 20 de Junho de 1828, foram enforcados. Mais tarde foi ainda preso um outro estudante, António Maria das Neves Carneiro, que sofreu igual sorte no dia 9 de Junho de 1830.
Escaparam três dos treze conjurados: Francisco Ledano Bento de Melo, Joaquim José de Azevedo e Silva e outro de quem se ignora o nome.
(Retirado de “Condeixa-a-Nova” de Santos Conceição, Ed. José Maria Gaspar, 1983. Ver também “O Retrato de Ricardina” de Camilo Castelo Branco, onde o autor faz uma descrição apaixonada dos acontecimentos).