Tempos de Cólera

A guerra já fora declarada com a pandemia covid-19

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A guerra já começara ainda antes da guerra da Ucrânia, pela forma como se pretendeu combater a pandemia da covid-19, com os estados de emergência e confinamentos e outras medidas não sanitárias, com o flagrante atentado às liberdades, direitos e garantias dos cidadãos - foi a preparação para a fase actual. E quem discordou desta estratégia e fugiu ao discurso único foi alcunhado de negacionista (e ainda é); agora, com a guerra, quem desalinhar da propaganda oficial ditada por Washington é alcunhado de “amigos do Putin”, “fascista”, “defensor da guerra” e outros epítetos menos simpáticos e até difamatórios, como está a acontecer com os generais que se limitaram a dar uma opinião militar e objectiva das razões e da forma como a guerra vai decorrendo no terreno. Antes do 25 de Abril, quem era contra o regime fascista era logo apontado como “comunista” e tinha a Pide à perna. Nestes tempos de intolerância, é de novo a delação, a caça às bruxas, é o fascismo brando de que falamos em relação a quem colocava em questão a estratégia do governo quanto à pandemia, só falta a Pide – podemos agradecer aos governos do PS e do Costa. 


E nota-se bem o efeito da propaganda das televisões e dos jornais mainstream no seio de alguma pequena-burguesia que se dispõe a uma solidariedade que não lhe traga custos no imediato, contudo não pensando no que possa vir a prazo, e falamos dos refugiados. E que se dispõe, na sua exaltada paixão pacifista, a apoiar a guerra, é ver os resultados de algumas sondagens feitas pelos jornais, já para não falar nas indignações patrióticas e pouco afeitas ao contraditório que vão aparecendo nas redes sociais. Num dos jornais do grupo Global Media, podemos ver que a maior percentagem das respostas à sondagem defende a “exibição de força militar no leste europeu” por parte da Nato, a seguir vem o “reforçar das sanções económicas” e, por último, é que vem a opinião do “continuar a via diplomática”, podendo concluir-se que a propensão por parte de alguma opinião pública é simplesmente o confronto. Pode-se entender este resultado porque a guerra está longe e não nos vai afectar, o que é um puro engano, porque numa guerra generalizada não haverá contemplações com a população civil, ao contrário do que parece na Ucrânia onde o número de vítimas ainda é diminuto atendendo à extensão e intensidade dos bombardeamentos,  e com a mais que certa entrada em cena de armas nucleares nem as tropas inimigas precisam sair do seu país, como a devastação será total. Esta gente hipócrita e leviana não pensa bem no que diz.


A opinião pública, numa larga maioria, está a ser formatada, primeiro com a pandemia, agora com a guerra, percebendo-se assim que não se tenha ouvido nenhuma recriminação quanto à afirmação de um Inspetor do SEF que advoga o uso de bastão para "tortura necessária". Parece que os instintos de torcionário não foram extirpados com a condenação dos torturadores e assassinos do imigrante ucraniano Ihor Homenyuk, nem com a reforma do SEF efectuada pelo governo PS; reformas estas que, diga-se de passagem, têm sido sempre de aparência, porque costuma ficar tudo na mesma, quando não pior. A nível interno, a burguesia vai aprimorando os instrumentos de repressão, não vá o povo querer revoltar-se. E a nível externo, temos assistido ao aumento do discurso e dos sentimentos de ódio contra o “outro”; por exemplo, em França, os crimes racistas, xenófobos e anti-religosos aumentaram 13% em 2021. Em Portugal o Chega foi promovido pelos mesmos órgãos de informação que agora clamam contra o “ditador fascista Putin”, foi entretanto normalizado pelas eleições precipitadas pelo PS&Costa para obter a almejada maioria absoluta. Na vizinha Espanha, o Vox, irmão político do Chega, entra pela primeira vez num governo regional. Estes partidos têm tido um papel histórico que é o de fazer o trabalho sujo da polícia, instilar o ódio, intimidar, agredir e, quando se vêm com a força suficientes, eliminar os indesejáveis pelo establishment, sejam imigrantes, minorias étnicas ou trabalhadores. Depressa iremos atingir esta fase.

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