
Relembrar o passado para compreender o presente ou como as nossas elites defensoras da guerra, como agora contece em relação à guerra na Ucrânia, quando o país é invadido, a primeira atitude é fugir, deixando o povo à sua sorte. Depois, é este que organiza a defesa com o sacrifício da sua segurança e da própria vida.
À meia noite de 24 de Novembro, o oficial de diligências Joaquim José de Azevedo foi acordado por um mensageiro e convocado de imediato ao palácio. Quando se aproximava da sala de reuniões do Conselho de Estado, viu através de uma porta semi-aberta um grupo de conselheiros, de cabeleira, em agitada discussão. Mandaram-no entrar na sala e, inusitadamente, recebeu ordens do príncipe regente em pessoa para começar a organizar o embarque da família real e dos dignitários do Estado. Outros funcionários puseram-no a par dos preparativos já em curso. O Almirante da Armada tinha elaborado uma série de pormenorizados diagramas, esboçando a distribuição espacial de pessoas e bens abordo da esquadra portuguesa. Os escolhidos para acompanhar a família real receberam passes para si mesmos, para a respectiva família e bagagens, que tinham de mostrar no cais. A partida estava marcada para a tarde de 27 de Novembro, o que dava a Azevedo menos de três dias para completar a sua tarefa.
Antes de partir para as docas, assegurou a sua própria passagem para o Brasil e depois alertou elementos-chave da Casa Real – o Camareiro-mor, o Controlador das Provisões da Casa Real – funcionários do Tesouro e dirigentes da Igreja. Quando chegou ao porto, descobriu que estava a fervilhar de funcionários públicos, trabalhadores das docas e uma multidão de mirones. Debaixo dos chuviscos daquela madrugada, chegavam agora carruagens de todos os cantos da cidade, abrindo caminho entre os caixotes, as bagagens e as barricas de água que enchiam o cais. Ao longo, no amplo estuário do Tejo, bergantins transportavam mercadorias para a frota, onde se avistavam pequenas figuras trepando aos navios, levando a cabo reparações de última hora. Azevedo assentou quartel no cais, e aí trabalhou toda a noite e pelo dia seguinte adentro, até de madrugada.
O arquivista Cristiano Müller foi também acordado naquela noite e recebeu ordens para empacotar os volumosos registos do Ministério de Estado que andava a preparar, para uma eventual retirada, nos últimos meses. Conferenciando com Araújo, finalizou os preparativos para trinta e quatro grandes caixas de papelada, que deveriam ser despachadas para o Brasil, abordo da fragata portuguesa Medusa . Entretanto, as residências reais de Queluz e Mafra eram evacuadas. Os corredores de Mafra fervilhavam com criadas de copa, pajens e valetes que trabalharam toda a noite a desmantelar ornamentos do palácio, a despir a basílica de todo o ouro e prata e a carregar pinturas a óleo para o exterior sob a chuva de Outono. Daí, o recheio do mosteiro foi carregado em centenas de carruagens e transportado para o cais. O pessoal do palácio desfez a segunda residência principal da família real, Queluz, enfiando antiguidades, porcelanas, pratas e todos os valores móveis numa série ainda maior de coches. Foi aqui que os outros membros da família real, D. Maria I, mãe de D. João, a Rainha louca a sua minúscula mulher espanhola, D. Carlota e os seus oito filhos, se juntaram ao êxodo para o porto.
Embora os planos tenham sido pensados ao longo de vários meses, a evacuação rapidamente se desorganizou, como descreve um cortesão:
"Se olhássemos para um lado poderíamos ver uma grande quantidade de bens exposta às forças da natureza, do outro, carruagens ornadas esperavam a família [real], rodando sem destino, ignorando o protocolo normalmente respeitado nestas ocasiões, alguns não querendo separar-se da sua bagagem e criados... outros desejosos de partir... temendo estar a ficar sem tempo... Foi assim que deixámos Queluz..."
Quando a última carruagem saiu do pátio de entrada de Queluz, o que um dia fora um retiro sagrado da realeza começou a ganhar o ar de edifício condenado. Da coluna em movimento lento, o palácio via-se cada vez mais ao longe, as paredes molhadas pela chuva já não pareciam imponentes, as sebes aparadas, a intrincada escultura de arbustos, as fontes e as estátuas esvaziadas de poder simbólico.
Na cidade, um enorme número de pessoas movimentava-se entre o emaranhado de ruas, pelas escadarias em caracol e estreitas calçadas íngremes que desciam das colinas para o porto. Apinhava-se nos cais, onde os ânimos estavam exaltados. Depois de meses de preparativos em segredo, os bens eram agora carregados às claras para a frota que aguardava e os dignitários abriam caminho por entre a multidão hostil para embarcarem. António de Araújo estava numa posição particularmente vulnerável, conhecido como era pelas suas simpatias francófilas e considerado por alguns como tendo sido conivente com Napoleão ao longo de todo o processo. Descoberto, quando tentava entrar no cais, a sua carruagem foi apedrejada, danificando a cabina e ferindo o cocheiro. Conseguiu sair ileso e foi enfiado num esquife que o levou até ao Medusa .
Os que estavam prestes a ser abandonados ao invasor francês olhavam, incrédulos, à medida que as dimensões da deserção se tornaram evidentes. Era uma operação com grande escala. O tesouro real – metade da moeda em circulação no país àquele tempo – e uma enorme quantidade de diamantes do Brasil tiveram prioridade. Caixas sem conta de documentos estatais contendo registos com muitos séculos eram carregados nos porões dos navios. Uma nova impressora, recentemente entregue em Lisboa, vinda da Grã Bretanha, foi embarcada na frota, ainda na sua embalagem original. A biblioteca pessoal de António de Araújo, uma impressionante colecção acumulada durante as suas viagens diplomáticas, foi também içada para bordo, enquanto que os sessenta mil volumes da Biblioteca Real da Ajuda se mantinham encaixotados nas docas. Parafernália religiosa, relíquias de família e mobílias provenientes de Mafra acompanharam a caravana. Depois de longas filas para entrar no porto, as carruagens chegavam à zona das docas onde se acumulava uma imensidade de bagagens mais pequenas -caixas de artigos pessoais, comida e peças de linho. A chuva persistente dificultava a operação, o cais estava agora saturado e os coches tinham dificuldade em abrir caminho na lama.
Qualquer esperança de que a fuga pudesse ser evitada desvaneceu-se na manhã de 27 de Novembro, quando o próprio D. João chegou às docas, acompanhado pelo Infante espanhol, Pedro Carlos, um favorito do príncipe regente que foi criado na corte portuguesa. Por recomendação dos seus conselheiros, que receavam actos de violência, o príncipe regente deslocara-se para o porto numa carruagem não identificada, com o cocheiro vestido à paisana. Tinha sido decidido que um discurso de despedida seria inapropriado naquelas circunstâncias e, em vez disso, o príncipe regente deixou instruções escritas sobre o tratamento a dar aos franceses quando chegassem à cidade. Deviam ser recebidos por uma assembleia de regência – o conselho de governadores – nomeada por D. João, que tinha ordens estritas para cooperar com Junot e aquartelar as suas tropas. A saída do príncipe regente seria discreta, o próprio embarque uma experiência pouco edificante para um soberano habituado a gozar de exuberantes demonstrações de devoção. No porto não houve baldaquinos, colgaduras ou tapetes de flores para o monarca de partida, apenas uma passadeira rudimentar – um par de pranchas de madeira, estendidas sobre a lama – que levava da carruagem à beira do cais. D. João estava visivelmente abatido pela provação e teve de conter as lágrimas quando embarcou no esquife debaixo de chuva torrencial.
A mulher de D. João, D. Carlota, chegou pouco depois numa carruagem menos discreta, de oito lugares, com os seus dois filhos, Pedro e Miguel, que tinha então seis anos, juntamente com criados e uma ama de leite para a Infanta Ana de Jesus Maria, de onze meses. Chegaram depois mais coches com as suas outras cinco filhas: Maria Teresa, já adolescente, e as irmãs Maria Isabel (de dez anos), Maria Francisca (de sete), Isabel Maria (de seis) e Maria d'Assunção (de dois).
A seguir chegou a mãe de D. João, a Rainha D. Maria I, de setenta e três anos, que estava louca há mais de dez anos, e que era dada a ataques súbitos e irracionais. Quando o seu coche se aproximava das docas, diz-se que gritou: "Não vão tão depressa! Eles vão pensar que estamos a fugir!" Ao chegar ao porto, recusou-se a deixar a carruagem, forçando o capitão da frota real, num momentâneo lapso de decoro cortês, a tirá-la à força da cabina, levá-la ao colo pelo cais e depositá-la a bordo da galera que a esperava. A cunhada de D. João, Maria Benedita, de sessenta e um anos, e a tia, Maria Anna, de setenta e um, completavam o grupo prestes a partir de três gerações da dinastia de Bragança.
Junot deixou para trás, no interior do país, o grosso das suas tropas, abandonou a artilharia pesada e fez uma incursão sobre Lisboa com a guarda avançada. Os seus homens estavam agora atolados em lama, com os uniformes a desfazerem-se exaustas de semanas de marcha. Ainda assim, a sua reputação assegurava-lhes a passagem a salvo. Os camponeses observavam em silêncio esta coluna desalinhada, que prosseguia penosamente a sua marcha através dos campos alagados, em direcção a Lisboa.
Com as notícias de que as forças francesas estavam a apenas dois dias de distância, os últimos vestígios de ordem e organização evaporaram-se no porto de Lisboa. Eusébio Gomes, o fiel de armazém real, foi apanhado no turbilhão : "Toda a gente queria embarcar, as docas estavam cheias de caixas, caixotes, baús, bagagens – mil e uma coisas. Muitas pessoas foram deixadas para trás no cais enquanto que os seus pertences iam para bordo; outros embarcavam, acabavam por verificar que a sua bagagem não os podia acompanhar." Os que tinham qualquer hipótese de conseguir uma beliche debatiam-se com os funcionários; brigas indecorosas estalaram entre nobres menores que faziam valer os seus direitos a um lugar nos navios já sobrelotados.
Enquanto muitos com apenas ténues ligações à corte e ao governo conseguiram forçar a sua entrada na frota nas derradeiras horas, outros não tiveram tanta sorte. Entre estes contava-se Lourenço de Caleppi, de sessenta e sete anos, o núncio apostólico junto do Palácio da Ajuda. Tinha-lhe sido prometido um lugar pelo próprio D. João, mas foi-lhe barrada a passagem por não apresentar o passe real. Bernardo José Farto Pacheco, Estribeiro-mor do Rei, foi outro alto funcionário deixado para trás devido a minudências burocráticas. Um regimento inteiro que deveria acompanhar a corte acabaria também por ficar em Lisboa, porque não foi possível encontrar espaço para os soldados a bordo. Para muitos destes homens, foi um dia fatídico. Estavam destinados aos trópicos, mas acabariam por ser integrados no exército francês e anos mais tarde morreriam de frio nos campos de batalha da Rússia.
O próprio Joaquim José de Azevedo quase que ficou em Lisboa, preso por multidões em fúria, como mais tarde contou já no Brasil:
"... no meu regresso das docas de Belém fui apanhado por um grande número de cidadãos que falavam todos ao mesmo tempo, pedindo notícias do seu chefe, do seu príncipe, do seu pai, e perguntando como é que ele podia estar por trás de um plano que os deixava em tão má situação. Apresentei desculpas oficiais, protestando sinceramente que não tinha qualquer influência sobre os acontecimentos, mas nada parecia aplacá-los... Não conseguindo chegar ao aquartelamento, fui levado pela multidão; no meio do tumulto, entrevi um guarda que se encaminhava para a saída e pedindo a sua protecção tentei acalmar as pessoas uma vez mais, protestando a minha inocência e afirmando que não iria embarcar, uma vez que acabava de ser nomeado chefe de pessoal de Junot."
Azevedo estava a mentir. Mas com este estratagema conseguiu libertar-se da multidão. Embarcou à meia-noite, deixando ficar o chapéu, dinheiro e documentos na sua cocheira nas docas.
No meio do ajuntamento de pessoas, um jovem olhava em volta. Nobre de nascimento, José Trazimundo, o futuro marquês de Fronteira, tinha apenas cinco anos quando a corte deixou Lisboa. Ficaria em Portugal, mas vários membros da sua família partiram nos navios para o Brasil. Mais tarde recordaria a perturbação emocional desse dia, com as famílias a dividirem-se e os amigos separados, alguns para nunca mais se reverem. "As minhas tias enviaram imediatamente duas carruagens para nos levar sem demora para as docas de Belém", recordava Trazimundo, mas foram bloqueadas pela multidão, por outros coches e pela montanha de bagagens da coroa "praticamente abandonada no meio da rua" . "Ao ouvir uma salva da esquadra, soubemos que o Príncipe tinha entrado a bordo. O meu tio, o Conde de Ega, abeirou-se dos nossos coches e disse-nos que a esquadra ia levantar ferro e tentar sair a barra, mas que duvidava muito devido ao mau estado do tempo... Nunca me hei-de esquecer das lágrimas que vi correrem, tanto das pessoas como dos criados reais e dos soldados que estavam na praça de Belém". Destroçados, os familiares de Trazimundo retiraram-se para casa do Conde da Ribeira, onde "as salas estavam cheias de parentes que compartilhavam o nosso infortúnio de não ter conseguido dizer o seu último adeus aos que emigravam."
Strangford desembarcou furtivamente bastante tarde, na noite de 28 de Novembro . "Soube que a maior parte da Família Real e da Nobreza Portuguesa já tinha embarcado", escreveu mais tarde num relatório dos Negócios Estrangeiros para Londres, "que os franceses estavam em Portugal e que Sua Alteza Real estava extremamente desejosa de me ver, de forma a ouvir da minha boca se as intenções dos britânicos eram a de o tratar como Amigo ou Inimigo." Tentou contactar António de Araújo, mas deu com a sua casa trancada e aferrolhada. "Lisboa estava num estado de tristeza medonha, demasiado terrível para ser descrito" , prosseguia o relatório. "Viam-se grupos de gente desconhecida e armada a vaguear pelas ruas, no maior silêncio, sem objectivo legal ou óbvio em mente; e tudo parecia indicar que a partida do Príncipe, se não se efectuasse instantaneamente, seria atrasada por tumultos populares, até se tornar impraticável pela chegada dos franceses." As forças de Junot aproximavam-se de facto muito rapidamente da capital, mas continuava a soprar um vento adverso que mantinha a frota ancorada. Os navios portugueses, agora perigosamente sobrelotados, balançavam para um lado e para o outro. Um medo indizível espalhava-se pelo convés das embarcações – o da possibilidade muito real de serem apanhados no porto pelos franceses.
Caminhando cautelosamente pelas ruas, Strangford regressou às docas e embarcou no navio português da frente, o Príncipe Real. Aí, segundo a sua versão dos acontecimentos, descobriu o príncipe regente ainda indeciso mas conseguiu convencê-lo. "Tudo dependia do grau de encorajamento e consolo oferecido a Sua Alteza Real", escreveu Strangford no seu mais controverso relatório , "a cuja mente era constantemente necessário apresentar a Decisão sob as mais cativantes e agradáveis formas... para destruir todas as esperanças de compromisso com o invasor, aterrorizá-lo com descrições sinistras da capital que acabava de abandonar e depois ofuscá-lo de súbito com as brilhantes perspectivas que se lhe abriam..." Outras testemunhas da cena contestariam mais tarde o relato de Strangford. Nesta última fase, já teria com certeza sido tomada uma decisão definitiva; estava tudo pronto para a partida, só o tempo o impedia.
Na manhã de 29 de Novembro o vento mudou. Às sete da manhã foi dada ordem para levantar âncora. Parara de chover e, com céu limpo, os navios, balanceando, desceram o Tejo até à barra. Para os que ficavam em Lisboa, foi um momento pungente, como recorda José Trazimundo:
"O vento soprava forte, do lado da barra e por isso... ouvimos uma salva à distância. Era do esquadrão do almirante inglês Sidney Smith que saudava o pavilhão real do navio que transportava o príncipe regente e nesse momento... deixava o porto. Mesmo que, dada a minha tenra idade, não pudesse avaliar a gravidade da crise em que o país e sobretudo a capital estavam mergulhados, com o exército francês a duas léguas das portas da cidade, recordo-me que fiquei impressionado com a expressão no rosto dos meus parentes e dos que nos rodeavam."
A frota passou perto de uns navios russos que tinham aportado por engano algum tempo antes, mas cuja pólvora tinha sido confiscada pelas nervosas autoridades portuárias. Atrás de si, o esquadrão real deixava um cenário desolador: bagagens, papéis ensopados em água e caixotes abandonados espalhavam-se pelo cais; a lama, muito pisada, começava a secar, deixando marcas da recente agitação – um caos de pegadas, torrões e linhas em espiral. Entre os detritos jaziam artigos inestimáveis do património da coroa, deixados para trás na pressa de partir. Coches luxuosos com arreios em belíssimo estado, muitos ainda cheios de valores retirados dos palácios, estavam parados nas docas vazias; catorze carradas de prata das igrejas foram abandonadas aos franceses e os sessenta mil volumes da biblioteca real da Ajuda espalhavam-se na lama. Algures, no meio dos caixotes de livros largados ao acaso no cais, encontravam-se edições quinhentistas raríssimas da Bíblia, mapas em pergaminho datados da "Era das Descobertas", primeiras edições de Os Lusíadas e livros com iluminuras de grande beleza e valor.
(“Império à Deriva – A Corte portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821”. Patrick Wilcken. Civilização Editora. 2005)
Imagem: https://ensinarhistoria.com.br/linha-do-tempo/fuga-familia-real-portuguesa-brasil/