
Eu que a levei ao rio,
pensando que era donzela,
porém tinha marido.
Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Apagaram-se os lampiões
e acenderam-se os grilos.
Nas últimas esquinas
toquei seus peitos dormidos,
e se abriram prontamente
como ramos de jacintos.
A goma de sua anágua
soava em meu ouvido
como uma peça de seda
rasgada por dez punhais.
Sem luz de prata em suas copas
as árvores estão crescidas,
e um horizonte de cães
ladra mui longe do rio.
Passadas as sarçamoras,
os juncos e os espinhos,
debaixo de seus cabelos
fiz uma cova sobre o limo.
Eu tirei a gravata.
Ela tirou o vestido.
Eu, o cinturão com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais com lua
reluzem com esse brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos,
a metade cheias de lume,
a metade cheias de frio.
Aquela noite corri
o melhor dos caminhos,
montado em potra de nácar
sem bridas e sem estribos.
Não quero dizer, por homem,
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
me faz ser mui comedido.
Suja de beijos e areia,
eu a levei do rio.
Com o ar se batiam
as espadas dos lírios.
Portei-me como quem sou.
Como um cigano legítimo.
Dei-lhe um estojo de costura,
grande, de liso palhiço,
e não quis enamorar-me
porque tendo marido
me disse que era donzela
quando a levava ao rio.
Federico García Lorca
***
LA COGYDA Y LA MUERTE
"Un ataúd con ruedas es su cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombras de la tarde!"
( Do poema "La Cogida y la Muerte", em "Llanto por Ignacio Sánches Mejías")
BIOGRAFIA:
Federico García Lorca, nasceu m Fuentevaqueros (Granada) em 5 de Junho de 1898 e morreu assassinado em Viznar (Granada), uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola, em 19 de Agosto de 1936. Foi dotado de uma personalidade extraordinariamente voltada para a arte. Além de ser um grande poeta, teve também alguns pendores musicais, tendo feito, ainda, alguns desenhos. É Garcia Lorca, com certeza, o poeta espanhol mais conhecido universalmente, só perdendo para Cervantes no número de edições e traduções de suas obras.
Garcia Lorca iniciou os seus estudos de direito, filosofia e letras, em 1914, na Universidade de Granada, transferindo-se em 1919 para Madrid, onde conheceu pessoas como o cineasta Luis Buñuel. Em Madrid nascem suas primeiras obras literárias, o "Libro de Poemas" e sua primeira obra teatral "Mariana Pineda". É também nesse período que se aproxima do grande mestre do surrealismo, Salvador Dali.
Em 1928 Garcia Lorca publica o "Romancero Gitano", composto por dezoito poemas no qual se encontram os motivos andaluzes da sua origem.
Depois dos seus estudos na Espanha, vai para os Estados Unidos, como estudante da Universidade de Columbia, em Nova Iorque , onde também profere conferências. A seguir vai até Cuba. É dessa época as suas obras, reunidas no livro "Poeta en Nueva Iork", livro no qual se percebem técnicas surrealistas, provenientes de imagens alucinantes para expressar o desdém de Lorca com o tipo de civilização moderna dos Estados Unidos daquela época, desumanizadora e promotora de injustiças sociais.
Ao voltar à Espanha, Lorca cria o teatro universitário ambulante " La Barraca ", com o qual faz montagens de peças de autores espanhóis consagrados, como Lope de Veja e Cervantes. A seguir, em viagem pela América do Sul, em particular Argentina e Uruguai, faz um grande sucesso em Buenos Aires , em 1933.
A situação vigente na Europa, já nessa época, iria, contudo, fazer de Garcia Lorca uma espécie de símbolo das vítimas dos regimes autoritários de direita e da tirania fascista. Após a eclosão da Guerra Civil Espanhola, Lorca saiu de Madrid para Granada, onde, supostamente, estaria mais protegido. É que Lorca, como sempre são os intelectuais de vanguarda, era um inimigo natural dos regimes autoritários. Além disso, numa Espanha católica, as possíveis tendências homossexuais de Lorca também não eram bem vistas. Por essas razões, vítima de uma denúncia anónima, Lorca é preso e assassinado, tendo o seu corpo sido jogado em um canto qualquer da Sierra Nevada.
O fato de Garcia Lorca ter sido assassinado pelo regime de Franco, fez com que, durante longo tempo, seu trabalho fosse pouco divulgado e até mesmo censurado na Espanha. Por outro lado, conforme já mencionado, tornou-se uma figura simbólica da opressão, o que fez com que vários poetas e escritores viessem a se ocupar de sua figura.
***
Segundo notícia divulgada pela Agência EFE, Madrid, em 27 de Julho deste ano, o fuzilamento do poeta espanhol Federico García Lorca no começo da Guerra Civil espanhola (1936-1939) teve a influência de desavenças familiares e aconteceu não apenas pelas suas ideias republicanas e sua condição de homossexual, segundo o documentário "Lorca, el mar deja de moverse", exibido no dia anterior na capital espanhola. O filme, dirigido por Emilio Ruiz Barrachina, sustenta que os primos do escritor por parte da família Roldán foram quem instigaram a detenção e o assassinato de Lorca.
Entre as origens dos desentendimentos estão as distribuições de terras compradas em sociedade, a homofobia e as diferentes tendências e ambições políticas nos alvores da Guerra Civil espanhola (1936-1939), já que os Lorca eram republicanos e os Roldán partidários do movimento de extrema-direita Acção Popular. Tais circunstâncias se agravaram quando García Lorca publicou em 1936 "A casa de Bernarda Alba", obra na qual, segundo Barrachina, o poeta destila seu veneno contra as famílias brigadas em uma espécie de "vingança pessoal". Com o golpe militar de 1936 que deu o início à Guerra Civil espanhola, essas pessoas aproveitaram "para acertar contas pessoais", segundo Barrachina.
Todas essas revelações estão documentadas no filme, inclusive a de que José Luís Trescastro Medina, um dos autores materiais do assassinato, era o marido de uma prima distante do pai do poeta. "Foi quem, depois do assassinato, contou que havia introduzido duas balas no ânus de Lorca pela sua homossexualidade", disse Ian Gibson, um dos historiadores que investigou o episódio mais profundamente.
Segundo o filme, após o golpe de Estado de Franco, o governador militar de Granada encarregou os Roldán da formação de esquadras negras para dizimar a população da região, e os primos de García Lorca aproveitaram a circunstância para matar o poeta. O documentário também considera que a homofobia no ambiente político também foi uma "das causas da morte" do autor de "Poeta em Nova York ", segundo Ruiz Barrachina.