
Ficamos com a corda da forca no pescoço depois da entrada da Troyka em Portugal e a crónica era a seguinte, primeiro falou-se em 80 mil milhões mas ficou pelos 78 mil milhões... ainda estamos a pagar:
Não deixa de ser irónico, embora não tenha piada nenhuma, que seja um governo de gestão, com a Assembleia da República dissolvida, que proceda às negociações com instâncias internacionais sobre um empréstimo vultuoso de muitas dezenas de milhares de milhões de euros (serão só 80?!) que, por sua vez, irá decidir sobre a vida do povo português para os próximos anos, senão décadas. Este facto patético revela-nos várias realidades: a Assembleia da República não passa de um verbo de encher; as conversações com o FMI, BCE e UE sobre a pretensa “ajuda externa” há muito que tiveram início, aliás, os 3 PECs aplicados são a prova de que o FMI já cá estava; os partidos do poder, PS, PSD e CDS/PP, porque não têm alternativa, estão de acordo (o PCP tem a porta aberta) e devem cumprir a missão de fazer o povo português amochar. Por outro lado, o governo de gestão, que antes de o ser até era “contra”, recorre ao FMI para salvamento do capitalismo nacional, vai abrir a porta a mais duras condições do que aquelas que incluíam o PEC4, desde mais desemprego, corte nos salários e nas reformas a aumento de impostos para quem trabalha. Perante esta situação, resta-nos: combater duramente este governo, até ao seu enterramento definitivo, e o governo que vier só fará o que os trabalhadores deixarem; exigir a saída de Portugal do euro, que deve passar pela realização de um referendo; bem como escrutinar o não pagamento da dívida, a exemplo do que acabou de fazer o povo islandês.
Os partidos do poder sabem que não vai ser tarefa fácil obrigar o povo que trabalha, ou seja, quem sempre esteve em crise e o único a pagar as crises das suas elites, a aceitar as medidas que se preparam, não de agora, mas há mais de uma ano, como necessidade de salvar o euro, como bem referiu o vice-ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Werner Hoyer. E há mais tempo se tem assistido a uma verdadeira campanha de intoxicação por parte dos principais media nacionais, todos pertencentes a importantes grupos económicos, também eles interessados no negócio, com aumento inusitado de intensidade e de alarido desde que o governo de Sócrates se demitiu em consequência do chumbo do PEC4 na Assembleia da República.
Esta campanha de intimidação sobre o povo que trabalha, especialmente entre os funcionários públicos é o boato persistente de que estes irão perder os subsídios de férias e de natal e, mais ultimamente, de que irá haver despedimentos, é feita no sentido de os trabalhadores aceitarem outras medidas menos duras, por exemplo, mais cortes nos salários, sendo preferíveis estes do que ficar-se desempregado. O discurso da intimidação passa pela ideia da fatalidade, o aperto do cinto é inevitável, tal como a crise; pela culpabilidade, estamos assim porque gastamos mais do que devíamos: “andamos a viver durante este tempo acima das nossas possibilidades”. Ora, esta propaganda é falaciosa e facilmente desmontável pelos factos e vivências quotidianas de cada um dos trabalhadores deste país.
Se alguém andou a viver acima das suas possibilidades foi exactamente a burguesia nacional, os banqueiros e demais patrões de empresas falidas ou endividadas ao estrangeiro. É bom frisar, coisa que é constantemente escamoteada, que a dívida privada externa é superior à dívida pública, como bem esclareceu Strauss-Kahn, presidente do FMI: " o problema [de Portugal] não é tanto de dívida pública como de financiamento dos bancos e dívida privada ". E se o estado está a ser pressionado, por toda a casta de exploradores para reduzir o défice e pagar a dívida aos bancos estrangeiros, é para ficar em condições para continuar a alavancar a banca nacional, as companhias de seguros e grandes grupos económicos, empresas de construção civil e demais parasitas dos dinheiros públicos. A privatização das últimas empresas que ainda estão nas mãos do estado, desde a TAP, passando pelos CTT e acabando no próprio banco estatal, a CGD, (e acabar com o SNS e a Escola Pública) enquadra-se nesta política de reforço do capitalismo nacional, não descurando os interesses do grande capital europeu e, agora com o FMI, também norte-americano. É o fartar vilanagem e quem paga a factura são sempre os do costume: o povo que trabalha e produz.
O FMI, com esta “ajuda” de 80 mil milhões de euros, mais não faz do que um bom negócio, mesmo que a taxa de juro seja “mais em conta”. Com os planos de resgate da Grécia e Irlanda, o FMI irá lucrar 1140 milhões, com Portugal, ao que parece, será pelo menos 600 milhões de euros, não contando com os milhões embolsados pelos bancos europeus credores. Os banqueiros nacionais, que pressionaram para que não houvesse delongas quanto ao plano de resgate, são principais contribuintes para a colossal dívida privada nacional, cerca de 220% do PIB. Eles contam meter ao bolso fatia grossa dos 80 mil milhões de euros, ao mesmo tempo que vão desviando para off-shores os seus muitos milhões de lucros e livres de impostos. É tempo de dizer basta! É tempo de dizer não a uma dívida que não foi contraída pelo povo trabalhador e da qual nada beneficiou. Mais do que dizer que “os ricos paguem a crise”, devemos dizer que esta dívida deve ser anulada por ser uma dívida ilegítima e abusiva.
A "ajuda" que aí vem é um autêntico saque, decidido entre FMI, BCE e Comissão Europeia, sobre o país e o povo trabalhador, é esfolar duas vezes o boi e o produto do roubo irá ser dividido entre bancos norte-americanos e alemãs – parece que desta vez os dois capitalismos internacionais se puseram de acordo, deixando de lado a competição, para nos assaltarem e massacrar. Mas parece-nos que ainda iremos assistir a disputa entre os dois grupos de bancos a fim de se saber quem fica com o maior quinhão. As medidas mais duras que as do PEC IV, exigidas pelos saqueadores e que se preparam, devem ser combatidas pelos trabalhadores portugueses, cuja luta se deve intensificar, desde já, contra o actual governo de gestão, que se revela pior do que quando era governo em normais funções de legislatura. As greves devem continuar e intensificar-se, as manifestações devem proliferar, até para mostrar ao governo, que aí venha depois das eleições de 5 de Junho, que o povo deste país não está pelos ajustes em deixar-se espoliar.
A auditoria às contas públicas; a saída do euro, com a criação de uma moeda nacional; a anulação da dívida pública externa; o controlo da banca privada, que pode passar pela nacionalização da que ainda não está falida; o desenvolvimento de uma economia em que os trabalhadores possam dizer o que se produz e como se produz de molde a satisfazer as necessidades dos portugueses, a fim de substituir grande parte das importações e assim acabar com o défice da balança comercial, que nos é bastante desfavorável com uma Alemanha ou uma Espanha, os nossos principais parceiros após entrada de Portugal na União Europeia; a limitação do montante das reformas por aposentação e dos salários, acabando-se de vez com o escândalo de reformas e salários multimilionárias, são os principais pontos de um programa político de qualquer partido que se queira de esquerda. Esperamos que apareça algum com este programa e concite o apoio da grande massa dos trabalhadores e do povo!
13 de Abril 2011
in www.osbarbaros.org